sexta-feira, 22 de junho de 2012

Mimados da fé

“Eu, porém, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, e sim como a carnais, como a crianças em Cristo. Leite vos dei a beber, não vos dei alimento sólido; porque ainda não podíeis suportá-lo. Nem ainda agora podeis, porque ainda sois carnais” (I Cor 1:1,2).

Desde quando casei uma coisa que sempre ouvi na criação de filhos é que não era certo dizer sempre sim a eles. Conceder-lhes todos os desejos seria muito perigoso, pois isso os levaria a se tornarem mimados. Hoje, com dois filhos, descobri que esse ensinamento é a mais pura verdade. Contudo, descobri mais outra verdade, existem muitos crentes mimados. O que eu não sei exatamente é porque surgiu esse tipo de crente, já que Deus não nos dá tudo o que queremos. Creio que seja o fato que existem muitos crentes que optaram por não crescer na fé, adotando ao longo do tempo postura de criancinha. Era necessário que houvesse crescimento espiritual para que chegassem a condição de adulto sensato, mas a verdade é que ainda não passaram de criancinhas mimadas da fé.
Para os mimados é extremamente difícil receber um não. Já vi criancinhas deixarem seus pais envergonhados fazendo uma cena digna de Oscar dentre de supermercados pelo fato de não ganharem o que queriam. Na maioria das vezes os pais voltam atrás e compram o objeto motivador de tamanho desespero de seu filho. Com Deus é semelhante, com exceção de que Ele não volta atrás por conta do nosso desespero “Oscariano”. Mesmo sabendo disso, muitas criancinhas mimadas da fé fazem biquinho, ameaçam, desistem, mudam etc. Se Deus não responde às suas orações, não traz o milagre esperado, a cura, o emprego, a solução, então, a pessoa desiste de Deus, procura outro deus e se submete a ele.
Outra característica dos mimados é que eles são egocêntricos. O centro do universo, da família, da igreja, da sociedade, dentre outras coisas, é o seu próprio umbigo. Faltaram algumas aulas com o mestre Jesus e, por isso, dizem: que seja feita minha vontade. Não que esses mimados estejam lutando pelo reino, pelo evangelho, ou mesmo por Jesus. A motivação é outra, brigam por que não acataram suas brilhantes idéias. A última palavra deve ser a dele. Para tudo que vai ser feito é necessário que seja consultado. Se tomarem uma decisão sem o seu consentimento, o barraco está armado, pois ele não irá deixar barato.   
Como o centro de tudo é o seu ego, os mimados são indiferentes. Pouco importa o que ocorre ao redor dele. A necessidade sempre estará dentro de si mesmo. Se outro tem algum problema, que importa? Assim são indiferentes ao corpo, pois ninguém terá maiores problemas que os seus. São indiferentes ao Pai, pois Ele estará em servi-lo e apenas isso. Serão indiferentes as bênçãos, pois suas utilidades passarão muito rapidamente. Em última análise  pode-se dizer que os mimados da fé serão indiferentes até mesmo ao preço da cruz, pois afinal, o que o Pai faz nunca é o bastante.
Meus irmãos é hora de crescer na fé e deixar de ser mimado. É hora de deixarmos as coisas de crianças e passarmos a nos comportar como adultos. O crescimento espiritual não vem com tempo. Se o crescimento físico é questão de tempo o mesmo não acontece com o crescimento espiritual. Você pode até ter perdido os dentes, o cabelo, a visão, a audição e as forças dentro de uma igreja e mesmo assim ser uma criancinha em Cristo. Crescimento espiritual é questão de escolha na medida em que se abandonam as coisas de menino e se dedica as coisas de adulto. Deus espera encontrar em nosso meio muitas pessoas desenvolvidas espiritualmente. Então vale a pergunta: você uma criancinha mimada da fé ou um cristão adulto e sensato?

Deus lhe abençoe!

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Jesus, um ser grandiosamente pequeno! (Fl 2:5-11)


Eu gosto de pensar em Jesus como um ser grandioso, majestoso e incrivelmente maior que a minha capacidade de compreendê-lo. Simultaneamente também gosto de me relacionar com Jesus como um ser pequeno, acessível e próximo. A Bíblia me dá margem para pensar das duas maneiras, e creio que ambas estão biblicamente corretas. Olhar para Jesus como um ser grandioso me faz lembrar quem eu sou. Percebo facilmente a minha insignificância e, portanto, a minha total necessidade de depender dele. Por outro lado, olhar para Jesus como ser pequeno não me deixa esquecer quem ele é. Me ajuda a lembrar que por mais inapropriado e pecador que eu seja Jesus sempre irá sujeitar-se a me abraçar. Isso é incrível!
A grandeza de Jesus afirma que Ele é poderoso. Teologicamente até criamos um termo para relembrarmos essa verdade inquestionável: Onipotência. Isso significa que não há nada que pensamos ou imaginamos que Jesus não possa fazer. Por outro lado, pela pequenez de Jesus lembramos que Ele é amor em sua expressão máxima. Por amor a gente até abre mão de certos direitos, e com Jesus não foi diferente (Fl 2:6). Por exemplo, pelo seu poder grandioso Jesus poderia eliminar o mal acabando com o ser humano mal. Mas pelo seu “amor que o torna pequeno” ele preferiu fazê-lo entregando sua própria vida em uma cruz. 
A grandeza de Jesus afirma que Ele criou todas as coisas. Como ser infinito criou coisas finitas, obras de sua mão. Cada átomo, cada energia, cada célula, cada organismo, cada espécie, cada ecossistema, cada planeta, cada sistema planetário, cada galáxia, tudo isso e muito mais, milimetricamente arquitetado pelo maior inventor e criador de todos os tempos (Jo 1:3). Alguém poderia pensar: ser tão grandioso como este jamais se sujeitaria a se aproximar de seres tão pequenos e limitados como, por exemplo, os seres humanos. Mas aqui entra a face pequena de Jesus, que se aproximou dos seres criados desejando se relacionar com eles. Essa é uma verdadeira maravilha que somente um ser grandiosamente pequeno como Jesus poderia realizar.
Um dos atributos que podem reforçar a grandeza de Jesus é o fato de que nele não se encontra nenhum tipo de pecado, ou seja, sua santidade. Afirmamos inclusive que o que torna Jesus diferente dos demais seres humanos dando legitimidade a sua obra redentora é o fato dele ser imaculado. Pois bem, alguém tão puro e santo como Jesus não poderia se aproximar de seres de reputação duvidosa, poderíamos pensar. Mas o lado pequeno de Jesus faz com que, a despeito de sua santidade, se aproxime do pecador. Ora comendo junto (Mc 2:16), ora livrando da morte (Jo 8:7), ora pedindo favor (Jo 4:7), ora deixando-se ser ungido (Mt 26:7). Seja como for, biblicamente é incontestável que Jesus, o santo, andou e se relacionou com inúmeros pecadores.
Há outra afirmação teológica que testifica da grandeza de Jesus, sua onipresença. Muitas vezes lembramos desse fato para dizer que Jesus está sempre presente, não importa o que aconteça. Mas às vezes parece que a onipresença é tão grandiosa que torna a presença desejada de Jesus impessoal. É quase que o fato de Jesus estar presente em nada tem a ver propriamente conosco e sim com sua característica divina de estar presente em todo lugar ao mesmo tempo. Daí eu me recordo que Jesus é tão grande ao ponto de ser onipresente e ao mesmo tempo tão pequeno a ponto de deixar-me aconchegar em seu peito (Jo 13:25). Milagrosamente Jesus reserva tempo e lugar específico para que a gente, só eu e Ele, possa se encontrar. No íntimo da presença do Mestre desfruto de seus ombros exclusivamente.
Apesar dessa possibilidade certa de comunhão íntima, não consigo esquecer que a grandeza de Jesus faz com que suas palavras sejam mandamentos. Em sua presença é bom permanecer em silêncio e atento ao que Ele diz. Da nossa parte espera-se a obediência. Esta forma de comunicação está correta e poderia terminar aqui se não fosse o fato de que Jesus se apequenou a ponto de querer me ouvir. Fico pensando, o que poderia dizer de especial que pudesse impressionar Jesus ou mesmo agradá-lo? Então chego a conclusão que não importa o que eu digo e nem como digo, só importa o fato de que a pequenez de Jesus o levou a querer me ouvir. Os mandamentos continuam sendo mandamentos, mas na face pequena de Jesus abre-se um novo tipo de comunicação, o diálogo.
Finalmente, diante da grandeza de Jesus, devo lembrar que a ele pertence toda a glória. Não me parece difícil pensar assim, pois tenho me acostumado a ver, e muitas vezes fazer, reverência a outro ser humano somente por que aparentemente alcançou um lugar de destaque na sociedade. Se já tenho predisposição em admirar humanos por conquistas humanas, temporais e passageiras, que poderia dizer de Jesus e suas conquistas? Sei que Ele merece toda glória e honra (Fl 2:9). O que é incrível para mim é o fato de que em sua pequenez Jesus quis humilhar-se assumindo a forma de servo (Fl 2:7). Assim o grande Jesus recebeu o nome pelo qual todo joelho se dobrará, e assim o pequeno Jesus dobrou seus joelhos para lavar os pés dos discípulos.
 Paulo começa nosso texto dizendo que deveríamos ter o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus. Quero encerrar essa reflexão ressaltando esse princípio, a grandeza e a pequenez, apesar de antônimas, não precisam andar separadas. Caminhando com Jesus podemos e devemos aprender que nossa vida deve ser vivida de maneira grandiosamente pequena. Isso significa que sabemos que somos pequenos a ponto de sermos totalmente dependentes do nosso Senhor Jesus e ao mesmo tempo “tão grandes” a ponto de termos custado seu sangue vertido na cruz. Viva a pequenez de Jesus para realmente experimentar sua grandeza.

Deus lhe abençoe!

domingo, 3 de junho de 2012

Uma palavra sobre dons espirituais

Nessa manhã vou ministrar uma aula sobre dons espirituais na Escola Bíblica Domical de minha Igreja. Quero compartilhar alguma coisa aqui no blog. Os dons espirituais são concedidos pelo Espírito Santo conforme ele quer (I Cor 12:1). O Espírito não está subordinado à ação humana para conceder estes dons. Os dons que Ele concede sempre visam um fim proveitoso (I Cor 12:7) e certamente não está refém da vaidade humana, muito menos no oferecimento de honras e destaque. Todo e qualquer dom deve sempre ser utilizado para cumprir seu principal objetivo que é a edificação da igreja (I cor 14:12).
Há uma variedade de dons. O apóstolo Paulo faz uma listagem em sua primeira carta à igreja de Corinto. A lista apresenta os seguintes: sabedoria, conhecimento, fé, cura, operações de milagres, profecia, discernimento de espíritos, variedade de línguas e interpretação de línguas (I Cor 12:8-11). Todos estes dons podem ser conferidos aos servos de Deus, mas não há, por parte do Espírito, obrigatoriedade com ninguém e com nenhum dom, no sentido de que se a pessoa não tiver determinado dom, sua relação com Deus está enfraquecida. O Espírito age como quer e distribui os dons como quer.
O apóstolo, ainda na mesma carta, afirma que qualquer dom deve ser empregado com amor (I cor 13). Em sua visão, não basta ter o dom, é preciso que este dom seja sempre acompanhado pelo amor. O amor é quem vai validar a ação de determinado dom. O dom pode ser um instrumento de poder e orgulho se não for precedido do amor. Então é importante buscar perceber o dom e evoluir em sua utilização, mas o caminho sobremodo excelente (I Cor 12:31) se dará pelas vias do amor.
Paulo, ao escrever esta carta e ao falar acerca dos dons espirituais, tinha uma preocupação: equilibrar o andamento das práticas da igreja relacionadas aos dons. A igreja de Corinto estava supervalorizando o dom de línguas (I Cor 14:23) e havia uma certa desordem nos cultos por conta disto. Além disto, havia uma preocupação do apóstolo em relação a incrédulos que, por ventura, entrassem na igreja e não conseguissem compreender nada do que estavam dizendo. Por isso ele vai dizer que era necessário ordem no culto (I Cor 14:26-36), inclusive e especialmente em relação ao dom de línguas.
Atualmente este dom tem sido um dos principais argumentos fundantes da divisão entre os grupos chamados de pentecostais e tradicionais. Parece que ambos se distanciaram principalmente pelo fato de defenderem extremos. Uns, os pentecostais, afirmam que aquele que realmente passou por uma experiência com Cristo necessariamente deve falar em línguas. É como se fosse um sinal da verdadeira conversão. Neste sentido surge a idéia do batismo no Espírito como uma segunda experiência com o Espírito de Deus em que Ele verdadeiramente completa sua obra e a sela. Para que todos possam perceber esta obra realizada, o Espírito Santo concede o dom de línguas.
Este posicionamento é totalmente equivocado. Primeiro, como já foi dito acima, o Espírito concede os dons de maneira livre e sem nenhuma obrigatoriedade. Não há argumentos bíblicos que afirmem que todo cristão tenha que necessariamente falar em línguas (I Cor 14:5a). Segundo, o dom de línguas é apresentado por Paulo como um dom dispensável e de utilização controversa, pois quem fala em línguas estranhas não traz edificação para a igreja (I Cor 14:1-25), sendo esta a principal razão da existência dos dons. Terceiro, por ser dispensável, e quando comparado ao dom de profetizar, ele se torna inferior (I Cor 14:5b). Portanto, o dom de línguas não pode ser elemento aferidor de conversão ou santificação.
Por outro lado muitos tradicionais rejeitam o dom de línguas como se não fosse bíblico. Este parece ser outro extremo. Rejeitá-lo é rejeitar a declaração de Paulo a igreja de corinto, visto que o apóstolo gasta um bom tempo para tratar sobre este dom. Em nenhum momento o apóstolo proíbe o falar em outras línguas. O que ele esclarece é como isto deveria ser feito, a partir do respeito de alguns critérios que ele determina. Além disto, ele afirma que gostaria que todos falassem em línguas (I Cor 14:5a), pois isto traria edificação individual (I Cor 5:4). Outra coisa importante é o fato de ser o Espírito quem concede o dom de línguas (I Cor 12:10) e, portanto, não cabe a igreja nem aos seus líderes determinar a não utilização completa deste dom (I cor 14:39).
O caminho sobremodo excelente, o amor, deve ser aplicado aqui. É preciso encontrar um equilíbrio entre o negar totalmente e o afirmar totalmente. Por amor, não se deve exigir de quem o Espírito não concedeu o dom de línguas que ele fale em línguas estranhas. Por amor também não se pode exigir de quem o Espírito concedeu o dom que ele nunca o utilize. E também por amor, deve ser estabelecidos critérios, assim como o apóstolo Paulo fez com a igreja de Corinto, para a utilização deste dom, a fim de que o indivíduo seja edificado, mas, que muito mais, a igreja seja edificada.
Deus lhe abençoe!