Minha esposa tem uma prima que se chama Leonora. Em 2001 fomos morar em outro país e desde então perdemos o contato com ela. Naquela ocasião Leonora era uma adolescente baixinha e muito gordinha. Moramos fora por quase 5 anos, retornando no final de 2005. Quando vi a foto da Leonora após o retorno, assustei: tratava-se agora de uma jovem muita alta e magra. Sua fisionomia e corpo mudaram completamente. Só acreditei que se tratava da mesma pessoa porque aqueles que ficaram no Brasil me afirmaram assim.
Esse fato me fez lembrar de uma ilustração que ouvi outro dia do Frei Carlos Mesters. Imagine se você tivesse que buscar na rodoviária uma tia avó, a mando de seu pai. Para cumprir a tarefa, seu pai lhe desse uma foto. Acontece que a foto havia sido tirada há 40 anos. Você esperava uma mulher de meia idade. Todos descem do ônibus, e ninguém se parece com aquela imagem que estava na foto. Por fim, desce uma senhora bem idosa e você então pergunta a ela se por acaso não havia visto a mulher em questão. Para sua surpresa ela diz: Sou eu! Você, meio incrédulo, pede licença e sai de fininho, pois na sua cabeça era impossível ser a mesma pessoa.
Algo semelhante acontece nas imagens que criamos acerca de Deus. Muitas vezes ficamos tão presos na foto que deixamos de perceber quem realmente é Deus. Willian P. Young escreveu um romance que ganhou muito destaque: “A cabana”. Nessa obra Young constrói imagens acerca de Deus que foram alvo de muitas críticas. Deus Pai é uma mulher negra e obesa, chamada Papai. Deus Filho é um homem do oriente médio que se dedica a marcenaria, chamado Jesus. O Espírito Santo era uma mulher asiática pequena e que provavelmente era jardineira, chamada Sarayu. Em uma passagem do livro, o personagem Mack (homem que vai ter um encontro com Deus na Cabana), depois de afirmar que Papai não poderia ser o mesmo Deus que ele conhecia, ouve da lindíssima Sophia (personificação da sabedoria de Deus): Talvez sua idéia sobre Deus esteja errada (Pg 150).
Diante disso, eu lhe pergunto: Qual a imagem que você tem de Deus? Será que ela é correta? A imagem que construímos de Deus determina quase tudo sobre as nossas vidas. A relação com o próximo, com o a criação, conosco mesmo, com a igreja, dentre outras coisas, sofre influência direta dessa imagem. E nós fazemos isso, construímos imagens sobre Deus. Às vezes consciente ou inconscientemente. Às vezes somos manipulados ou mesmo induzidos por aquilo que os outros dizem.
Conta-se uma história em que um menino assistia um dos vários filmes a respeito do ministério e vida de Jesus. Quando Pilatos realizava o julgamento, depois de alguma hesitação, Jesus foi finalmente condenado à morte. Nessa hora o menino exclamou com profunda satisfação: Isso mesmo Pilatos! A mãe, que estava na cozinha, assustada com a reação do filho, perguntou: Meu filho, como você pode reagir assim, é Jesus que vai morrer? O menino então responde: ora mãe, a senhora não diz que Jesus vive querendo castigar a gente por aquilo que a gente faz? Então eu acho que a condenação dele foi muito merecida.
Mais do que olhar para as imagens que nossas mães ou quem quer que seja constrói acerca de Deus, temos que olhar para aquilo que a Bíblia diz. Muitas imagens sobre Deus foram construídas ao longo das Escrituras. Deteremo-nos a uma imagem interessante construída no período do exílio babilônico e no pós-exílio, relatada no Dêutero-Isaías (Is 40-55) e no Trito-Isaías (Is 56-66), respectivamente. Vale dizer que a imagem antiga de Deus não funcionava mais. No período pré-exílico Deus era um monarca santíssimo, acessível apenas por alguns, os sacerdotes, que habitava em um templo, cujo grande sinal de sua benção era a oferta da terra. O exílio exigiu uma nova imagem de Deus, pois o templo foi destruído, o sacerdócio foi extinto e a terra foi invadida.
Nesse contexto a imagem que as pessoas passam a ter de Deus brota no ceio da família. Deus passa a ser experimentado no contexto familiar. Agora Deus é Pai (Is 64:8; Is 63:16): o pai que ama, perdoa e educa. Agora Deus é Marido (Is 54:5): o marido que ama, provê e acaricia. Agora Deus é Mãe (Is 66:13; Is 49:15): a mãe que gesta, amamenta e protege.
O povo hebreu usava um nome interessante para Deus: El Shaddai (lit. O Deus que amamenta). Certa ocasião um bandido, depois de assaltar um banco, procurava um refém para que pudesse fugir. Percebeu que tinha uma mãe com uma criança no colo. Então ele pede que a mulher lhe dê a criança, o que ela prontamente negou. Furioso, ele disse: ou a senhora me dá a criança ou então vou atirar em vocês. A mulher envolveu totalmente a criança em seu colo e disse: você pode me matar, mas meu filho eu não te entrego. O bandido atirou, a mulher morreu e a criança saiu ilesa. Talvez essa história trágica pode nos dizer um pouco sobre Deus. Este Deus, que também é mãe, é capaz de nos envolver com sua proteção doando-nos totalmente a vida, mesmo que para isso tenha que padecer.
Mesmo buscando essas imagens bíblicas sobre Deus ainda corremos o risco de errar. Podemos eleger aquelas que mais nos agradam e desprezar aquelas que não nos satisfazem tanto. Ou mesmo podemos continuar a propagar um discurso sobre Deus iverossímel por repetir o que os outros dizem. Conta-se uma história em que estava diante das pessoas uma foto de um homem com expressão muito severa e apontando um dedo de acusação. Alguém perguntou: o que essa imagem representa? As respostas foram: acusador, antipático, irritadiço, mal educado etc. Neste momento entra um jovenzinho correndo, e ao olhar a foto, esboça surpresa e exclama: este é o meu pai. Essa foto foi eu que tirei. Ele estava defendendo a causa de alguns sem-teto que foram expulsos de um terreno lá onde morávamos. Nessa hora meu pai estava muito bravo com os donos do terreno, pois ele sabia que aquela propriedade teria um fim nada humano nas mãos deles.
A semelhança daquele menino que abriu os olhos de quem era o seu pai para aqueles que não conseguiam ver além da imagem fotográfica, Jesus abre os nossos olhos para de fato enxerguarmos o verdadeiro Deus, seu Pai. Em Jesus, nos torna mais clara a compreensão do Deus Pai, do Deus Marido e do Deus Mãe. Em Jesus, Deus fica mais nítido e passamos a experimentá-lo como nunca. Então, lá vai uma dica: Se aproxime tanto de Deus a tal ponto de jamais confundi-lo. Essa aproximação só será possível pelas vias do caminho que se chama Jesus. Entregue completamente a sua vida a Jesus e nunca mais a imagem verdadeira de Deus será ofuscada.
Deus lhe abençoe!